segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Material de comédia

E de novo, o protagonista é um "fogareiro".

Se a aventura do outro dia já tinha sido digna de relato, a de ontem então é do género "contado ninguém acredita".

Tudo começa com a forma apressada como o taxista sai do carro e se dirige a mim, como se estivesse atrasado para ir para um sítio qualquer. Ocorreu-me o pensamento: Então mas porque é que ele julgará que eu estou com pressa? Não foram precisos dois segundos de rabiosque colado ao assento traseiro para logo perceber a razão da pressa.

A Sra. desculpe por ter o rádio ligado, sim? Mas está a dar um programa muito interessante com este homem fantástico que foi ministro. É um grande homem. O Correia de Campos. Este homem fez muito por este país e eu sempre vou aprendendo umas coisas com ele. Que grande homem! Que grande homem! A Sra. pode apertar o cinto se faz favor? Obrigada... desculpe, sim? Que grande homem. A Sra. não se importa de fechar o vidro? Obrigada, obrigada. Desculpe, desculpe.

Eis senão quando, em vez da voz desse vulto nacional chamado Correia de Campos, o rádio começa a emitir um som roufenho e a voz dessa imensidão de pessoa começa a desvanecer-se progressivamente.

Pan-Pa-Pan-Pan (som das mãozinhas do Sr. a embaterem contra o dito aparelho numa tentativa, infelizmente, mal sucedida de trazer de volta a magnífica criatura). Que chatice! O rádio está velho e agora não posso ouvir este programa tão bom com este homem tão fantástico! Entretanto pensei para comigo: Olha-m'este a querer comparticipação da Je para um rádio novinho em folha! Nem as porradas desesperadas no rádio nem as inúmeras tentativas de sintonização da frequência certa a todo o gás em plena A5, fizeram com com que se voltasse a ouvir a voz do Senhor... Correia de Campos. O que foi, de facto, uma pena. Visível e audivelmente abalado, o taxista desliga o rádio. E o fim estava próximo.

Então, diga-me lá... qual é a área profissional da Sra.? Pensei para comigo: Oooops, e agora como é que eu descalço este tamanco? Lá respondi: Sou farmacêutica.

Ai, que interessante! Sabe que este homem fantástico que foi ministro e que estava agora neste programa, falou muito dos hospitais e dos médicos. Este homem acabou com a dívida das farmácias e dos hospitais... portanto... o país estava muito mal e a dívida era muito grande mas... portanto... ele conseguiu fazer coisas incríveis. Os hospitais... os hospitais são bonitos. Nós entramos num hospital e aquilo agora é bonito. Tem de haver qualidade de vida, portanto, para quem lá trabalha. Os médicos, os doentes, quem lá trabalha. Isso é um mundo... os laboratórios e os médicos e os farmacêuticos, portanto, as coisas que se fazem hoje em dia, não é? As células... eu quero viver até tarde... eu acho que, portanto, vamos viver até aos 200 anos. Essas coisas que hoje inventam... sei lá, portanto, das células e dos genes, não é?

É, é. (Ocorria-me esta ideia: alguém me tira desta viatura?)

Ai, enganei-me... eu queria sair no outro lado... coitada da Sra.... que chatice. Desculpe, sim? E eu lá ia dizendo que não tinha importância e dei indicações para o resto do caminho, sendo que quase fomos fazer turismo para o parque de estacionamento de uma grande superfície comercial e já na minha urbanização, perante a minha indicação À direita, o Sr. encosta à berma. Depois eu disse À esquerda e ele arrancou de novo. Esta última frase é ficção mas achei que ficava bem no figurino.

Já paraditos em frente ao meu prédio - entenda-se, ao meu e ao do outro lado da estrada - faço o pagamento, o Sr. passa o recibo e enquanto guardo troco e recibo na carteira, o Sr. sai do carro. Quando ponho o pé na rua e olho em volta, onde é que ele está? (Agora era capaz de deixar o post por aqui para vos lançar o desafio, mas como já temos adivinhações num blog aí ao lado, e eu não quero ser acusada de imitadora barata, vou poupar-vos) Está exactamente, sem tirar nem pôr, a correr abraçado ao meu trolley de porão e a dois centímetros da porta... do prédio em frente ao meu.

Não é preciso dizer mais, pois não?
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