quarta-feira, 30 de abril de 2008

Que Deus a ajude!

Que é como quem diz "Santinha!" Se bem que a expressão do título seja para mim novidade no que toca a retorquir aos espirros alheios, é bem possível que me assente melhor que o referido agora no corpo do texto. Em primeiro lugar porque santinha não sou de certeza (Deus me livre e guarde!) e porque entre ser santinha e ter Deus a ajudar-me, prefiro definitivamente a segunda. Não enlouqueci, juro. É que hoje em open space no meu trabalho espirrei de forma audível, ao que uma colega (meia idade, super à frente e do mais despachado que aquela empresa já viu) responde com um "Que Deus a ajude!" tão ou mais audível que o próprio espirro. Eu (algo despachada também) logo lhe disse "Obrigada! Olhe que bem preciso!". Para meu espanto ela disse-me "Ah, era você? Ouvi espirrar mas nem percebi quem era". Fiquei desolada e logo o expressei dizendo: "Ah, então quer dizer que deseja que Deus ajude qualquer pessoa?!" Ouvi logo um "Com certeza! Não duvide!" que me deixou ainda mais de rastos. E pronto, à custa desta cena parvíssima deixei-me rir (esta expressão irrita-me solenemente mas assenta aqui que nem uma luva) hoje por várias vezes. Isto contado não tem graça nenhuma, mas no momento teve toda a graça. Pelo menos para as pessoas envolvidas. Situações espontâneas em que cada um diz uma bacorada pior que o outro são da minha predilecção e são capazes de me encher um dia. Foi o caso de hoje. "Rústica d'um raio" pensarão alguns. Mas não me importo. A sério.

domingo, 27 de abril de 2008

Notas ao vento


Vou no meio da rua, a dirigir-me para o carro que está estacionado já à minha frente. De repente, por entre sol e uma brisa ligeira oiço não muito longe duas ou três notas musicais terrivelmente agudas e perfeitamente colocadas por uma voz que julgo especial. Olho em volta na ânsia de tentar descobrir quem as emite. Penso para com os meus botões que um talento assim não deveria ser desperdiçado. Quando descubro o autor, percebo que afinal não há desperdício nenhum ligado àquela pessoa. O Nuno Guerreiro também canta na rua e que bem que lhe fica! Entro no carro e abro a janela na esperança de continuar a ouvir mais um pouco. Acho que se calou. Fala agora com a pessoa que o acompanha e já não adoça os meus ouvidos. Momento simples mas reconfortante este.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Inteligência suprema

Quem é que em véspera de fim-de-semana prolongado pensa (e, pior, concretiza) em passar uma ponte sobre o Tejo duas vezes (ida e volta) tendo a alternativa de não o fazer? Não vou responder porque é demasiado humilhante. A verdade é que como escrevia Bruno Nogueira no seu blog por ocasião da Páscoa, o povo português transfigura-se quando ruma em direcção ao Algarve nestas alturas. Infelizmente, a metamorfose inclui um certo enlouquecimento rodoviário. Nem mesmo o facto de o S. Pedro estar solidário (pelo menos, por enquanto) para com todos os viajantes, faz com que os acidentes não aconteçam. Ora, é sabido que se as estradas sempre entopem aquando destas escapadinhas, com batidas à mistura, então é o delírio. Ele é acidentes na faixa da esquerda, ele é acidentes na faixa da direita. Enfim, nenhuma via fica ilesa. O pior mesmo é que para estes acidentados o fim-de-semana prolongado começa da pior forma. Digamos que para os não acidentados metidos ao barulho o cenário também não é dos melhores. O meu conselho: um bule de chá de tília antes de se fazerem à estrada. Por favor.

Aqui não há quem fique!

Pelo menos por agora. Uma para Paris ontem sem data para voltar. Outra para Londres amanhã para umas mini-férias. Outra para Itália por 1 semana. Outro para Nova Iorque por 1 semana também. Outro para Espanha de fim de semana. Uma outra ainda para Angola sem data para voltar mas ainda sem data definida para ida. Outro para Paris daqui a 15 dias. Quer dizer... então e eu? Agora seria a parte do lamento. Do dizer que sou uma pobre que não vai a lado nenhum e que só vê os outros irem. Mas não. Sou diferente, pasme-se. A mim cabe-me Londres num misto de trabalho e férias, já daqui a semana e meia. Parece que a Primavera (que finalmente resolveu dar o ar da sua graça) chega mas afugenta o pessoal.

domingo, 20 de abril de 2008

Desincentivo à natalidade

Muito se fala do envelhecimento da população e das medidas possíveis para travá-lo. Não sigo este assunto de perto mas penso que já se falou algures em subsidiar os novos pais (não faço ideia se foi criado tal subsídio ou se está ainda em estado embrionário) e acho que até se aumentaram os principescos abonos de família.

Acho que não cometo um grande erro ao dizer que por mais incentivos que se criem, eles nunca conseguirão superar o grande desincentivo instaurado há anos e em agravamento notório, que é o custo de vida. Acredito que hoje em dia há muito mais pobreza escondida do que havia há alguns anos atrás. Acredito que o crime na actualidade é mais motivado pelo desespero de querer sobreviver do que por maus vícios dispensáveis. Trazer uma criança ao mundo exige muita responsabilidade. Ou pelo menos deveria. É compreensível que quem a tenha, pense algumas vezes antes de abraçar essa enorme responsabilidade. É só uma questão de visitar umas lojas com os tais artigos imprescindíveis. De facto, mesmo comprando no hipermercado ou nos ciganinhos (como dizia uma colega minha há uns tempos atrás "ah e tal... se não vestirem Benetton, vestem dos ciganinhos"), há todo um despesismo envolvido que tem de ser muito bem ponderado. E não me falem em visão materialista da situação porque embora a tónica seja emocional e não material, não há como desligarmo-nos da última.

E se formos pensar que assim que um casal tem uma criança, tem de adquirir um carro novo (habitualmente o monovolume da ordem), dar à sua criança igual ou melhor que o coleguinha do infantário ou da escola, para que ela não se torne num ser altamente traumatizado, teríamos pano para mangas. Talvez num próximo post...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Desalinhada

Tomar decisões não é para todos. Reclamar também não. O insurgimento contra situações pré-estabelecidas a roçar o dogmático sem razão aparente para o serem, isso então é que não é para quase ninguém! Com tanto traço de personalidade disponível na natureza, porque é que eu tinha logo de ser contemplada com todas estas características? Qualidades para alguns mas defeitos para muitos, eu continuo a acreditar que o mundo só avança se exercermos todos estes direitos. Aquilo que muito consideram picuinhices e mau feitio, eu considero direitos. Ainda para mais, com o passar dos anos até aprendi a refrear a forma directa e impetuosa como os exercia e, ao invés, usar de enorme cordialidade e, sempre que possível, exibir um sorriso comedido (não cínico) de quem só quer levar o barco a bom porto. No entanto, é curioso ver como as pessoas se encolhem perante o exercício destes direitos, ainda que feitos da forma mais diplomática possível. E juro que nem o faço com intenção de parecer bofetada de luva branca mas sinto que acaba por resultar como tal. Para além disso, é conotado com ameaça, o que torna a coisa ainda mais fascinante e convidativa à repetição. Requintes de malvadez? Talvez...

domingo, 13 de abril de 2008

David Fonseca grows on you


Falar de David Fonseca não é, definitivamente, a mesma coisa que ouvir e ver David Fonseca. Até porque de cada vez que voltamos a fazê-lo, há sempre algo de novo que nos agarra quando menos esperamos que aconteça. 12 de Abril de 2008 será com certeza um dia que o David não vai esquecer tão depressa (palavras do próprio) e, mais certo ainda, um dia que eu também não esquecerei. E tal como eu, os espectadores atentos e vibrantes que enchiam o Coliseu de Lisboa. Voz, musicalidade, presença, imaginação, atitude, personalidade, são algumas das palavras que descrevem na perfeição este artista português. Para além de todos estes ingredientes já de si capazes de moldar um grande artista, o David junta-lhes uma grande dose de intimismo, o constante factor surpresa e uma ainda maior capacidade de comunicação e cumplicidade com o público. Entre originais (e um, mesmo, mesmo, original, que ainda não tem título definido mas que o David ali pré-denominou de Orange Tree) e covers, sempre combinados com grande mestria, ficamos sem saber muito bem qual o registo em que preferimos ouvi-lo. Cada música que acaba traz sempre uma sucessora à sua altura e a harmonia é tão evidente que nos faz acreditar que umas não resultariam sem as outras. O sonho do David acabou por terminar da melhor forma com uma cover que julgo nunca tinha cantado e que é uma das minhas músicas preferidas de sempre (faz parte da minha lista de 31, que um dia destes colocarei aqui no blog)- Electric Dreams de Giorgio Moroder - com o David e músicos trajados a rigor, quais personagens saídos do imaginário da criança que habita em cada um de nós. Foi uma noite espectacular e fico ansiosamente à espera das próximas emoções e surpresas porque sei que não irão faltar. Não seria justo acabar sem salientar a óptima performance da Rita Redshoes, que preparou o público da melhor forma para o estrondoso espectáculo, musical e cenicamente perfeito, que se seguiria.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Silêncio e tanta gente



Silêncio e tanta gente
Letra e música: Maria Guinot (vencedora do Festival da Canção de 1984)

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou

Às vezes é mesmo assim! Este poema musicado é um verdadeiro ode ao crescimento do ser humano, com toda a adaptação (ao meio e às gentes) que lhe está associada. É tão bom quando outros já exprimiram aquilo que sentimos e por outro lado, até gostaríamos de ter sido nós a dizê-lo daquela forma tão peculiar e insubstituível. Esta é daquelas mensagens de vida que conheço desde o dia em que foi apresentada publicamente e que revivo a cada momento de forma sempre mais intensa. O amadurecimento dá-lhe um peso, forma e cor que perduram e se intensificam dia após dia.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Com hormonas pelo meio, não é traição?

Vinha eu no carro ao final da tarde de hoje a ouvir a Antena 3, nomeadamente uma rubrica cujo nome já ouvi mas do qual já não me recordo (a uma sexta-feira à tarde não me peçam para me recordar de grande coisa, porque temo poder não corresponder...) em que participa a Ana Bola. Ao que parece, o tema central era a traição. Apanhei a conversa ali numa fase em que se tentava definir o termo, sendo que das cabeças pensantes intervenientes, cada qual tinha a sua opinião (como convém, de resto, para um programa desta natureza). Ainda assim, pareceu-me que a opinião mais diferente era a da Ana Bola, que defendia que se um parceiro trair o outro (e aqui, entenda-se "trair" como aquilo que pelo menos 99 % de nós entende por traição), isto não é traição, a não ser que tenha sido feito um juramento de que se não trairia o outro. Mais, se um amigo mentir a outro, isso é traição. Se um parceiro omitir a outro algo que para nós, os tais 99 %, podia ter impacto na vida sentimental, isso não é traição. E porquê? A diferença está nas hormonas. Se houver hormonas à mistura, tudo se desculpa. Quase apetece dizer que se trairmos um amigo, estamos safos de ser apelidados de traidores se no entretanto conseguirmos fazer um apelo hormonal recíproco bem sucedido. Nunca tal me tinha ocorrido, mas é capaz de ser uma boa saída. Vou ver se ponho em prática na primeira oportunidade. Ou não. É que, de facto, o meu conceito de traição é bem diferente do da Ana Bola e bem mais do senso-comum. Há princípios básicos que conhecemos e seguimos sem que tenhamos de os proferir em bom som para que sintamos que temos de os aplicar. A força dos sentimentos e das convicções de vida superam qualquer palavra vã. O conceito de traição ou de qualquer outra coisa está na nossa consciência e na formação de base que temos. As minhas dizem-me que trair é trair independentemente da pessoa atingida. Até porque, idealmente (mas eu sou, definitivamente, uma sonhadora), o meu parceiro deverá ser, nada mais, nada menos, do que o meu melhor amigo.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Para início de conversa...

... e de escrita no blogue, há que dizer que às vezes, por mais rodeados que estejamos, não conseguimos encontrar os ouvidos certos para a mensagem que queremos passar. "Mensagem" é capaz de ser um termo forte e pomposo porque implica que contenha informação estruturada e com um objectivo definido. No meu caso, não tem de ser o caso - passe o pleonasmo. Afinal de contas, acho que nem é o meu nem é o de muitos que não se contentam apenas com aquilo que é imediatamente perceptível aos 5 sentidos. Talvez aquilo que está para lá dos sentidos consagrados seja tão ou mais importante do que o que estes percebem. Conversa hermética esta. Talvez o seja. O facto é que, e não querendo exaltar o meu "eu" (e o dos outros que entenderão o que escrevo) como algo de extraordinário à face da terra, sou forçada a afirmar que não consigo (nem quereria, mesmo se o conseguisse!) contentar-me com determinadas demonstrações de pequenez de quem parece ter nascido desprovido de sentidos extra. Aqueles que, ao fim e ao cabo, tornam a vida tão mais cheia, questionável e vivível.